Allan Kardec reserva o capítulo XIV de 'O Livro dos Médiuns' para caracterizar as principais variedades de manifestações mediúnicas e, por conseguinte, os principais tipos de médiuns. Entre eles, destacamos neste estudo os médiuns denominados audientes, descritos como aqueles que possuem a capacidade de ouvir a voz dos Espíritos. Em sua dissertação, Kardec distingue dois mecanismos pelos quais a mensagem espiritual pode ser percebida: "como uma voz interior, que se faz ouvir no foro íntimo" do médium e como uma voz exterior, a exemplo do que acontece nas conversações mundanas, sendo esta percebida de forma "clara e distinta, qual a de uma pessoa viva" [1].
Independente do modo pela qual a mensagem é percebida, cumpre relembrar a instrução do Espírito Áulus. Referindo-se às mediunidades vidente e audiente, afirmou que "toda percepção é mental" [2]. Em outras palavras, o médium audiente "ouve" através da mente, sem a necessidade do concurso dos ouvidos do corpo físico. Experiência semelhante e comum a todos os homens é a que acontece durante o sono físico, quando a alma - em estado de emancipação - vê e ouve sem o concurso dos órgãos materiais dos sentidos.
Por ser um fenômeno mental, depreende-se que cada médium, por possuir uma capacidade particular de percepção, registrará os fenômenos de maneira diversa do que fora percebido por outro companheiro. Estas divergências perceptivas, ocorrência comum nesta atividade mediúnica, não podem ser confundidas com aquelas produções resultantes da imaginação das pessoas. Kardec alerta: "muitos há que imaginam ouvir o que apenas lhes está na imaginação" [3]. Estes não são médiuns, no sentido exato da palavra. Na maioria das vezes, são portadores de distúrbios que lhes prejudica o melhor juízo da realidade, embora existam aqueles mesmos dotados de má-fé e os fraudulentos.
Existem médiuns audientes cuja faculdade se manifesta em estado normal de consciência, quando estão perfeitamente despertos, resultando deste fato a memória exata do fenômeno e da mensagem transmitida pela Espiritualidade. Em outros, porém, a faculdade exige do médium um estado de consciência descrito como transe mediúnico, que compreende a exteriorização do perispírito mediante esforço de concentração do médium para perceber a mensagem do Espírito.
Embora seja descrita por Kardec como uma faculdade muito comum, a audiência raramente é permanente. Na maioria das vezes, sua ocorrência é passageira. É fundamental que seja desta maneira, pois estamos constantemente cercados por Espíritos. Ouvi-los todo instante seria inconveniente e perturbaria nossos pensamentos e ações.
Os médiuns audientes, no exercício de sua faculdade mediúnica, podem captar as mensagens que são transmitidas deliberadamente pelos Espíritos. De acordo com o campo auditivo de sua mediunidade, podem também ouvir "rumores, vozes, palavras e até mesmo conversações inteiras provindas do mundo espiritual, mesmo quando não sejam emitidas deliberadamente para seu conhecimento" [4].
Depreende-se que esta faculdade será mais ou menos agradável de acordo com a natureza das comunicações e, evidentemente, dos Espíritos que as produzam. O mesmo vale para concluir se este intercâmbio poderá ou não oferecer algum tipo de prejuízo ao médium. Sendo bons os mensageiros do plano espiritual, as mensagens são sérias, com um fim útil e na maioria das vezes constituem instruções valiosas para o médiuns ou grupo mediúnico e não há nenhum inconveniente em travar conversações com estes Espíritos, inclusive podendo-se constituir um hábito. No entanto, ao contrário, quando os médiuns audientes são cercados por Espíritos maus, estes lhe fazem "ouvir a cada instante as coisas mais desagradáveis e não raro as mais inconvenientes". Neste caso, conforme orienta o Mestre Kardec, "cumpre [ao médium audiente], então, procurar livrar-se desses Espíritos" [5].
REFERÊNCIAS
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KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Item 165.
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XAVIER, Chico (pelo Espírito André Luiz). Nos Domínios da Mediunidade. Capítulo 12 - Clarividência e Clariaudiência.
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KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Item 190.
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ARMOND, Edgard. Mediunidade. Capítulo 9 - A Lucidez.
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KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Item 165.
PINGA-FOGO
Este artigo foi elaborado em resposta à seguinte pergunta:
Gostaria de saber se estabelecer vínculos com Espíritos, se conversar com eles irá me prejudicar de alguma forma, pois eu os vejo e converso com alguns deles. É lógico que recebo um treinamento, mas estava lendo o artigo do site (Diálogo com Espíritos foi o tema do Curso de Reeducação de Médiuns) e achei bem interessante. Enfim, gostaria de saber se "ficar batendo papo" com eles poderá me prejudicar de alguma forma. Obrigada e parabéns pelo site!
(Questão enviada Ana Carolina C. A.)









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